segunda-feira, 20 de julho de 2015

segunda-feira, 20 de julho de 2015
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Como ler muito e continuar na mesma
http://www.ulige.com.br/2015/07/como-ler-muito-e-continuar-na-mesma.html
Confira o novo artigo do poeta e escritor Ulisses Tavares
Dizem que o peixe morre pela boca, principalmente quando abocanha o anzol crente que era uma deliciosa minhoca.
No sentido figurado, o poeta aqui deu uma de peixe.
Durante os últimos anos, tenho defendido que as pessoas devem ler, e muito, e sempre, e o que quiserem ou gostarem. Com unhas e dentes, advoguei em palestras que é melhor ler pouco do que nada. E já saí espalhando por aí que mais vale uma leitura tola e fútil que servirá como treinamento para leituras de mais fôlego, no futuro.
Fui um dos primeiros a louvar a Internet como ferramenta que forçasse os jovens a, no mínimo, praticarem a linguagem escrita e despertasse a geração adormecida (como a Pátria, no Hino Nacional) em berço esplêndido para novos conhecimentos.
Pois é. Eu, em grande medida, estava errado. Mordi a isca e entalei com o ferrão do anzol da realidade.
Minhas “verdades” não resistem as mais recentes pesquisas sobre hábitos de leitura e vou esclarecer tudo neste artigo, porque persistir no erro, mesmo que bem-intencionado, é pura burrice.
Primeiro, arriemos do mastro a bandeira de que, de porcaria em porcaria literária, de livros em livros água com açúcar, aos poucos o leitor ingressaria no vasto mundo da literatura clássica ou no instigante e complexo universo da literatura contemporânea.
Sei que não apenas eu como muitos professores esperançosos apostamos nessa possibilidade.
Infelizmente, os fatos nos desmentem.
Levantamento de entidades ligados ao livro, como a CBL, constataram o óbvio: as tiragens dos romances cor-de-rosa, no Brasil, são de fato gigantescas e avidamente consumidas às centenas dos milhares nas bancas de jornais.
Maravilha, em princípio.
Só que um dado surpreendente e assustador emerge da pesquisa: quem lê esse tipo de literatura continua lendo imutáveis historinhas de amor pelo resto da vida.
Trocando em miúdos, os jovens e maduros leitores sonhadores desse segmento (uma versão atualizada dos antigos folhetins) leem muito. E trocando em graúdos, não leem nem se interessam por nenhum outro gênero ou tipo de livros.
Certamente, não é esse leitor que vai compor o País de Leitores que nosso romantismo canta nestes tempos escuros.
Agora, a Internet.
É inegável que os jovens, em especial, estão trocando o hábito de leitura de jornais, revistas e livros, pela consulta na telinha digital.
O mercado de livros vendidos nas livrarias já encolheu pela metade.
E o tempo dedicado à mídia tradicional (a mídia impressa e televisiva) também caiu 40%.
Um fenômeno com consequências imprevisíveis, mas não assustador, pois quando Gutemberg inventou os tipos móveis também se achava o fim dos tempos, afinal livros eram copiados à mão.
O que dá o que pensar, e preocupar, é que os neoleitores, a geração web, está lendo mais... porém sem nenhum critério.
Os trabalhos escolares estão recheados de textos catados na internet e... sem contexto!
Parágrafos inteiros de grandes pensadores são copiados sem citar a fonte.
Os poemas, então, são massacrados diariamente.
Aquele famoso de Gabriel Garcia Marques, “La Marioneta”, que supostamente celebra a vida de um Gabriel à beira da morte, nunca foi do grande Gabo. Seu autor é um ventríloquo mexicano, Johnny Welch, que escreveu o poema para seu boneco!
Em suma, os webeiros estão lendo qualquer droga e passando para frente como obras definitivas.
Isso não é conhecimento. É preguiça pura.
E leitor preguiçoso nunca vai virar um bom leitor. Como apenas ouvir música estilo sertanojo e quebra-barraco não é um bom primeiro degrau para se transformar em requintado ouvinte de Bach.
Por incrível que pareça, apenas os contumazes e fiéis leitores e fazedores de quebra-cabeças (essa categoria também composta de revistinhas e livrinhos best-sellers) estão no bom caminho da habilitação à carta de motorista leitor-premium.
Enriquecem seu vocabulário. Lembremos que sem amplo vocabulário não se chegará a ler e entender nem bulas de remédio ou anúncios de imóveis.
E, de lambuja, exercitam o cérebro evitando o mal de Alzheimer.
Acaba meu espaço mas continuam as coisas aí pedindo para refletirmos juntos. Ler, pensar e coçar é só começar.

Ulisses Tavares, poeta, escritor, professor, dramaturgo e filósofo multiuso.

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ulige
2015-07-20T13:30:00-03:00
Entretenimento Escritor Ulisses Tavares

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