segunda-feira, 3 de agosto de 2015

segunda-feira, 3 de agosto de 2015
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Mundo sem poesia é imundo
http://www.ulige.com.br/2015/08/mundo-sem-poesia-e-imundo.html
Você concorda? Confira o novo artigo do poeta Ulisses Tavares
A realidade da vida, em si mesma, não se sustenta.
O ser humano é mais que um organismo que precisa de comida, roupa, sono e ar.
As pessoas são famintas de carinho, ficam frias sem o cobertor da esperança, não dormem direito apenas com os braços de travesseiros, e querem, sempre, voar nos pensamentos. Respirar não basta, não preenche. Queremos inspiração para criar, amar, repartir. Aspiramos ser um outro ser, o que não somos podemos imaginar.
Nem o macaco no zoológico aguenta as limitações, por mais bem tratado que seja. Claro que ele trocaria de bom grado a sua jaula pela liberdade da floresta.
Deixamos para amanhã a luz que poderíamos ter ainda hoje. Nos assusta a poesia que iluminaria o túnel escuro em que nos arrastamos.
Nós, os macacos evoluídos, temos a dor e o prazer de querer romper limites. E procuramos desesperadamente achar a chave da gaiola da civilização.
A chave está dentro da gente. Sabemos disso. Mas dá trabalho procurar com afinco. Dói nos conhecermos.
Daí desistimos com facilidade.
E preferimos ficar macaqueando a farsa que a realidade externa nos mostra como felicidade.
Triste espelho distorcido esse do dia a dia em que nos miramos para ajeitar o sorriso no rosto enquanto a alma chora.
E vamos dançar, vamos para a balada. A música é alta para atordoar, a bebida forte para alterar rápido, e os corpos se juntam hoje para se desajuntarem amanhã cedinho como copinhos descartáveis de café.
Queremos amor, claro. Só queremos e não temos porque, como todos, não desenvolvemos a delicadeza da entrega, da generosidade, do gosto pelas diferenças, pelas descobertas lentas, cautelosas e profundas.
Os poemas escancarados de amor, de paixão, de entrega, de renúncia ao seu próprio umbigo, vão rareando, encolhendo, sumindo.
Poema de amor não enche barriga, dizemos. Nem ajuda a conquistar beltrana, a impressionar fulano.
E seguimos assombrados e sozinhos e surpresos porque contas bancárias, academias de ginástica e carro novo também não conseguem nos tirar de nossa solidão.
Nos contentamos com prazer sexual sem nunca chegar ao orgasmo espiritual, cósmico, que um simples e poderoso verso proporciona.
E assistimos o noticiário para que este nos confirme que a poesia é inútil.
Claro que nenhum bandido gosta de poesia. O poema é o território do humano, do sensível, do compartilhar. Nada a ver com o território sangrento de sua violência.
Poderosos também não são chegados. Poesias insistem, frequentemente, em lembrar que existe todo um povo em redor deles, com seus apelos e urgências. Então, a política fica sendo a chatice, o tédio, o exercício vazio da crueldade. Falta o sonho. Política sem sonho é apenas um discurso.
Demoramos milênios para adquirir o dom da fala. Séculos para dominarmos a escrita.
Aprendemos a registrar em letras aquilo que estava engasgado na garganta imaterial de nosso íntimo.
Frase após frase, passamos pela vida a procurar uma resposta.
E todas as respostas estão ali, na nossa frente. São muitas porque muitas são nossas perguntas.
Mas uma dessas respostas foi feita para nós por um de nossos semelhantes. A mesma coisa que nos inquieta também afligiu algum poeta, em algum momento.
Teremos a coragem de ouvir?
Poesia não se destina a fracos. Antenados percebem que da fraqueza vem sua força.
Onde quer que se vá, um poeta já se atreveu a passar por lá. Pelos céus e pelos infernos de todos nós.
A tecnologia muda, os costumes mudam, mas o ser humano é o que sempre foi e será, nem muito melhor nem muito pior que isso que está aí.
Dia a dia rima com poesia, sim. Você decide. Abra um livro de poesia já. Antes que seja tarde.


Ulisses Tavares é, claro, poeta, mas não otário, mano.


https://www.blogger.com/profile/14657032355176316743
ulige
2015-08-03T13:30:00-03:00
Escritor Ulisses Tavares

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