terça-feira, 20 de outubro de 2015

terça-feira, 20 de outubro de 2015
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Poesia: A melhor autoajuda
http://www.ulige.com.br/2015/10/poesia-melhor-autoajuda.html
Confira a "poesia autoajuda" do escritor Ulisses Tavares
Calma, esperançoso leitor, iludida leitora, não fiquem bravos comigo, mas ler autoajuda geralmente só é bom para os escritores de autoajuda.
Porque não existe receita para ser feliz ou dar certo na vida.
Sabe por quê?
Porque apenas você sabe o que é bom e serve para você. O que funciona para um nem sempre funciona para o outro.
Os únicos livros de autoajuda que dá para se respeitar, e são úteis mesmo, são aqueles que ensinam novas receitas de bolo, como consertar objetos quebrados em casa ou como operar um computador.
Ou seja, lidar com as coisas concretas, reais, exige um conhecimento também real, tim-tim por tim-tim, item por item.
Com gente é diferente.
Gente não vem com manual de instruções quando nasce. Nem para viver nem para morrer.
E se você precisa de conforto ou de conselhos, existem caminhos bem fáceis e boa parte deles de graça: igrejas, templos, botecos ou... amigos, parentes, lembrou?
Se alguém anda necessitado de regras, palavras de ordem e comandos enérgicos sobre o que fazer, melhor entrar para o exército.
Mas se você não quer deixar ninguém mandar em você, tenha coragem e encare-se. Não adianta fugir de seus medos, suas dores, suas fragilidades, suas tristezas.
Elas sempre correm juntinho, coladas em você.
Tentar ser perfeito, fazer o máximo, transformar-se em outro, dói mais ainda.
Colar um sorriso no rosto enquanto chora por dentro é para palhaço de circo.
Portanto entregue-se, seja apenas um ser humano cheio de dúvidas e certezas, alegrias e aflições.
Você é um ser humano, queira ou não. Não apenas um coelhinho transador ou um japinha trabalhador. Então, aproveite e use algo que, isso sim, com certeza, é igual em todos nós:
A capacidade de imaginar, de voar, se entregar.
Se nem Freud te explica, tente a poesia.
Ah, e a poesia vai resolver teus problemas existenciais?
Provavelmente não.
A poesia às vezes é como aquele bordão do Chacrinha, não veio para explicar, mas para confundir.
Quando acerta é por acaso, como na vida.
Ficar confuso é o normal, relaxe e aproveite.
Você não precisa ajeitar o casamento. Precisa é amar.
Você não precisa ser súper na cama. Precisa é gozar.
Você não precisa de um súper salário. Precisa é gostar do trabalho.
Selecionamos alguns trechos de poemas que provavelmente falam das respostas que você anda procurando em livros de autoajuda.
Tomara que ajudem.
O próprio pai da psicanálise, Sigmund Freud, depois de passar a vida debruçado sobre os mistérios do sexo, os grilos na cuca, os gritos do corpo, os sussurros da alma, admitiu que onde quer que ele fosse ou olhasse um poeta já havia passado por ali.
Então, venha junto com os poetas que indicamos aqui.
O sábio Mário Quintana já dizia que um bom poema é aquele que nos dá a impressão que está lendo a gente... e não a gente a ele.
Estão todos na livraria, biblioteca ou página da internet mais próxima.
De propósito, não selecionei nenhum medalhão ou desses poetas que estão em muitos livros escolares, como eu. Poesia está mais para lição de vida que lição de casa.
E depois vá em frente. Procure outros poetas.
Você nunca mais estará tão sozinho a ponto de achar que precisa de um livro de autoajuda para mostrar o caminho das pedras.


Autopiedade

Amar, amei. Não sei se fui amado,
pois declarei amor a quem odiara
e a quem amei jamais mostrei a cara,
de medo de me ver posto de lado.
Se serve de consolo, seja assim:
Amor nunca se esquece, é que nem prece.
Tomara, pois, que alguém reze por mim...
(Glauco Mattoso,“Confessional”)


Adeus amor

Nem que a vaca tussa
Quero mais tua fuça...
Mas por dentro o coração soluça.
(Leila Míccolis, “As aparências enganam”)


Acasalamento

Comigo é assim:
ficar olhando não basta. Vou logo
precipitando borrasca e estrela.
Que se cuide o olhar alheio quando
olho com o corpo inteiro, porque alojo fácil,
peço café e pijama, e fico pastando
com esse olhar de boi manso
no breve espaço da cama.
(Affonso Romano de Sant’ana, “Limitações do flerte”)


Envelheci 

Só na velhice a mesa fica repleta de ausências.
Chego ao fim, uma corda que aprende seu limite
após arrebentar-se em música.
Creio na cerração das manhãs.
Conforto-me em ser apenas homem. 
Envelheci,
tenho muita infância pela frente.
(Fabrício Carpenejar, “Décima elegia”)


Autoestima

eu não preciso
que você goste
de mim
autoestima
é isso?
(Nicolas Behr, “Autoestima”)


Amar é...

noite de chuva
debaixo das cobertas
as descobertas
(Ricardo Silvestrin, sem título)


Bombando

Não vou
morrer de enfarte
em plena festa
nem de fome
nesta fartura.
Quando sou
a última estrela que me resta,
resolvo brilhar
e aí ninguém me segura.
(Bráulio Tavares, “Palco iluminado 2”)


Ulisses Tavares tem o livro “Se nem Freud explica, tente a poesia!”, Editora Francis, reunindo trechos de mais de 300 poetas da antiguidade até nossos dias, agrupados em verbetes sobre as grandes e pequenas questões humanas. Não é um livro de autoajuda. Mas pode até ser.



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ulige
2015-10-20T13:30:00-02:00
Escritor Ulisses Tavares

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