quinta-feira, 31 de março de 2016

quinta-feira, 31 de março de 2016
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O Poeta Cansado e A Estrela do Mar
http://www.ulige.com.br/2016/03/o-poeta-cansado-e-estrela-do-mar.html

Minha única arma é a poesia, parecida com a lança de Dom Quixote a atacar moinhos de vento.
Por acreditar que ser poeta não é destino ou escolha, mas sim uma missão de vida, tenho apostado nos sonhos, nas utopias, nos movimentos por um mundo melhor.

De corpo e alma, já lutei em várias frentes, sempre como formiguinha solidária, nunca líder ou chefe de nada.

Até porque minha única arma é a poesia, parecida com a lança de Dom Quixote a atacar moinhos de vento. Não alcança mentes entorpecidas, sequer faz cócegas em corações embrutecidos e, sobretudo, não dá ibope em tempos de matéria e meu pirão primeiro.

Os únicos que levam a poesia à sério são aqueles que já carregam no peito a vontade e a sede de mudanças. Um pequeno e raro exército de brancaleones. Uma pequena tribo de resistentes convictos de que as coisas que importam, como amor, paz, respeito aos animais e a natureza, não estão à venda no mercado da vida. E, principalmente, que consciência não é algo descartável de acordo com mesquinhos interesses individuais.

Já me engajei contra o consumismo exacerbado, virando hippie em Parati. Fui veemente contra a repressão sexual e a favor da emancipação feminina, fazendo arriscados recitais nu em pelo em lugares públicos. Crítico dos encastelados acadêmicos, todos de costas à realidade fora das universidades, até hoje sou persona non grata aos donos da cultura tupiniquim. Pela liberdade de expressão, colocamos centenas de poetas a panfletar e gritar pelas ruas. Contra a ditadura militar, ganhamos cadeias e porradas. Para impedir as usinas nucleares, também usamos a poesia e fomos os primeiros a lembrar dos peixes torrados pela urina quente delas. Conseguimos uma única vitória, que foi impedir um aeroporto em Caucaia, convocando a ajuda dos passarinhos e meia dúzia de gatos pingados ambientalistas, numa época em que isso era grego. Pelas eleições diretas, gastamos anos de esperneamentos e enfrentamentos com o sistema político-burocrático-militar.

Enfim, foram e tem sido, batalhas das quais nunca me arrependi.

Nunca fui pessimista, só impaciente.

E, nos últimos anos, o poeta velhinho e sambado que sou, volta e meia se pega meio cansado e desanimado.

Não é fácil se dedicar a causa da defesa dos animais, na teoria e na prática, em tempo integral.

São tantas atrocidades, tanto descaso, que temo me faltarem vida e energia suficientes para prosseguir.

Nesses momentos de aflição, recorro aos ensinamentos budistas, sempre tão práticos, lógicos e iluminados.

Como aconteceu esta semana quando uma amiga, budista e cachorreira e coroa como eu, me contou a pequena lenda do monge e as estrelas do mar.

Que é assim: o idoso monge todos os dias bem cedinho era visto a caminhar pela praia, recolhendo as estrelas do mar na areia, e jogando-as de volta para a água.

Um dia, alguém questionou por que ele se dava a esse trabalho, extenuante e ingrato. Afinal, com a maré baixa, a maioria das estrelas do mar morreria mesmo, sob o sol forte. E ele era um só para tantas.

Daí, ele pegou uma estrela do mar, mostrou-a ao incrédulo, arremessou-a de volta ao mar e disse:

-Agora vai lá e diz pra ela que meu gesto é inútil e não faz diferença. Para ela, faz.

Agradeci minha amiga pelo presente que me deu, essa historinha, com certeza me contou de propósito. Para ela, tantas vezes reclamei que meus antigos amigos da esquerda zoam comigo questionando minha luta pelos animais, diante de tantas outras mazelas sociais.

Agora, rejuvenescido, sei o que responder para eles:

-Vão lá dizer para aquele bichinho abandonado e sofrido que o que fazemos não tem importância.

https://www.blogger.com/profile/14657032355176316743
ulige
2016-03-31T13:30:00-03:00
Escritor Ulisses Tavares

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