quinta-feira, 30 de junho de 2016

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Bípede humano é prosa. Bicho é poesia
http://www.ulige.com.br/2016/06/bipede-humano-e-prosa-bicho-e-poesia.html

Eu, poetinha tupiniquim e escritor profissional, volta e meio instado pela mídia e pelos leitores a opinar sobre variados assuntos, sei, sinto e avalio bem o que é isso.
O filósofo Arthur Schopenhauer, meu ídolo, só se referia aos seres humanos, dada sua complexidade, alienação e crueldade (por esquecerem sempre que também são animais) como bípedes humanos.

O velhinho genial Schopenhauer era mesmo crica, um chato de galochas, raramente gostava de conversar com alguém sobre suas ideias, bem à frente de seu tempo. Tão vanguarda seu pensamento que influenciou e deu base para nada menos que Freud, Nietzsche, Tolstói, Kafka e quejandos. Foi o primeiro, por exemplo, a alertar para a sabedoria budista, em pleno início do século 19, para o mundo ocidental que não tinha a menor noção disso.

Mas havia um vivente com quem ele compartilhava tudo, sem restrições, abria seu coração e dúvidas e fraquezas e planos.

Se chamava Atma (significa ‘alma do mundo’, ou ‘a fagulha que habita em nós’, em sânscrito, aquela língua perdida há milênios, um dos oito idiomas que Schopenhauer dominava). Um cão babento e vira-latas. Quando fazia peraltagens, Schopenhauer o repreendia assim: “Para com isso, Humano!”

Não há referência histórica que mostre qualquer outro bípede humano, nem sua mãe, sendo tratado com tanta consideração e carinho pelo filósofo como Atma. Ele jogava pesado com seus contemporâneos, homens ou mulheres, pobres ou ricos, cultos ou iletrados, mas se enternecia e se derretia e se solidarizava com os animais. Algo totalmente insólito no contexto porque a moda (será que mudou tanto assim?) era considerar os bichos como cartas fora do baralho do universo. Bichos não tinham alma e nem sentiam dor alguma (eram como mecanismos de relógio, segundo o fdp do filósofo Descartes, famoso, respeitado e estudado nas universidades, naquela e nesta época).

Sem coincidência, Nietzsche simplesmente enlouqueceu em 1889, ao ver um cocheiro espancar cruelmente o cavalo. O grande pensador da humanidade se agarrou ao pescoço do animal, chorou e pediu desculpas em nome de todos nós. Quem ama e defende os animais, hoje, claro que se identifica com ele.

Eu, poetinha tupiniquim e escritor profissional, volta e meio instado pela mídia e pelos leitores a opinar sobre variados assuntos, sei, sinto e avalio bem o que é isso.

Escrever, dissertar sobre o mundo dos bípedes humanos implica cair na prosa. Algo mais linear, lógico, coerente, com início, meio e fim. Já ao falar dos bichos, todos, só a poesia explica. Tento escrever em prosa, mas a poesia a supera em tudo.

Daí, dá neste tipo de coisas, como quando Tutty Antonio, meu Atma, morreu em meus braços após 16 anos curtindo o poeta em seus momentos de luta com as palavrinhas. Um epitáfio prévio que nenhuma pessoa me inspiraria:


Adeus, meu dono. Adeus, meu amigo.

“Adeus, meu dono
Adeus, meu amigo
Foi bom viver ao seu lado
Espero ter sido bom viver comigo
Não pergunto para onde vou agora
Nem mesmo por que estou indo
(Aos cães, Deus resolveu
bondosamente perdoar dúvidas)
Se for como foi aqui
Com certeza estarei rindo
Levo a lembrança
De nossos dias em festa
Afinal minha alegria
Todo dia era de criança
Quantas vezes não consolei
Sua solidão e tristeza
Latindo: estou aqui
Olha do sol a beleza
Reparte comigo o que não sei
Você se sentindo um caco
Para mim sempre um rei
Adeus, meu dono
Adeus, meu amigo
Entro em paz neste sono
Deixando cumprida a missão
De um cão neste mundo insano:
Fazer bater feliz seu coração
Tornar seu sentir mais intenso
E, por que não dizer, mais humano.”



Ou em micropoemas como estes:


“Ilógico
O zoológico.
Quem está fora
Quer entrar e ver.
Quem está na jaula
Quer sair e viver”


*

“Lugar de animal selvagem,
A floresta.
Mas qual ainda resta?”


*

Humanos deixaram de
Serem bichos.
Do ponto de vista
Da natureza,
Viraram lixo.”


*

“Não se mata apenas com arma
Com revolver ou faca.
Pode ser apenas com o apetite
Em cima do prato
Onde jaz uma vaca.”


*

“Eis que conseguimos
O que parecia impossível:
Peixes morrendo de sede nos rios
Pássaros morrendo por falta de ar
Bichos morrendo no asfalto.
Se isso é evoluir,
Um grande e horrendo salto.”

Me consola Arthur Schopenhauer, em minha aflita imaginação, que certamente diria que bípede humano é tema irrelevante comparado aos animais. E vale mais a pena aprender com eles, cuja alma não é pequena.

Ulisses Tavares assina embaixo do visionário Arthur Schopenhauer: “Quem é cruel com os animais não pode ser um bom homem”. Coisas de poeta.

https://www.blogger.com/profile/14657032355176316743
ulige
2016-06-30T13:30:00-03:00
Escritor Ulisses Tavares

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